Pug problemas oculares mais comuns aparecem com frequência no consultório e geram muita ansiedade nos tutores: olhos saltados, lacrimejamento excessivo, vermelhidão, opacificação da córnea e até perda visual são sinais que exigem avaliação rápida. Este texto reúne, com base em práticas aceitas pelo CFMV, CRMV-SP e ABMVP e na literatura em oftalmologia veterinária, explicações práticas, diagnósticos diferenciais e orientações sobre o que fazer — claramente e sem termos incompreensíveis — para que você saiba exatamente o que significa cada sinal e quando agir.
Antes de entrarmos nos problemas específicos, é importante entender por que os Pugs apresentam predisposição ocular. A próxima seção resume a anatomia e as características da raça que explicam a alta prevalência de alterações oculares.
Conformação do Pug e por que seus olhos são vulneráveis
Anatomia braquicefálica e as consequências para o olho
Pugs são braquicefálicos, ou seja, têm crânio curto e face achatada. Essa conformação reduz a profundidade da órbita (o “encaixe” do globo ocular), deixando o olho mais exposto. A combinação de órbita rasa, prognatismo (focinho curto) e pálpebras curtas aumenta o risco de trauma, ressecamento e lesões da superfície ocular.
Exposição corneana e lagophthalmos
Lagophthalmos significa incapacidade de fechar completamente as pálpebras; isso permite que a córnea (a superfície transparente do olho) fique exposta ao ambiente. A exposição crônica provoca ceratite por exposição, que é inflamação da córnea por ressecamento e microtrauma. Para o tutor, isso se traduz em olho seco, vermelhidão, sensação de areia no olho (o cão pisca muito) e risco aumentado de úlcera.
O que isso significa para a rotina do seu Pug
Expectativa prática: Pugs geralmente precisam de atenção regular aos olhos — limpeza suave, proteção contra trauma (não deixar brincar sem supervisão) e revisões oftalmológicas periódicas, especialmente se aparecem sinais de irritação. Em muitos casos, pequenas intervenções cirúrgicas (por exemplo, comissuroplastia medial, que encurta o canto do olho) melhoram conforto e proteção a longo prazo.
Agora que você entende a anatomia e por que os olhos dos Pugs são vulneráveis, vamos identificar os sinais de alerta que exigem atenção imediata.
Sinais de emergência ocular: quando procurar atendimento imediato
Sinais que indicam risco de perda visual ou de estruturas oculares
Procure atendimento urgente se notar: dor intensa (o cão fecha o olho, geme ou evita luz), proptose (olho visivelmente deslocado para fora da órbita), sangramento intraocular, opacificação súbita do olho ou perda perceptível da visão. Essas são situações que podem levar à perda permanente do olho se não tratadas rapidamente.
Glaucoma agudo: apresentação e urgência
Glaucoma é aumento da pressão intraocular (PIO)pressão intraocular é a pressão dentro do globo ocular que deve ser medida com um aparelho chamado tonômetro — a medição se chama tonometria. Em ataques agudos, a PIO sobe rapidamente, causando dor, vermelhidão, midríase (pupila dilatada) e perda visual. O glaucoma agudo é uma emergência: a meta é reduzir a PIO nas primeiras horas para preservar o nervo óptico e a visão.
Úlcera de córnea com risco de perfuração
Uma úlcera de córnea é uma ferida na superfície do olho. Se a lesão parecer profunda, a córnea estiver esbranquiçada ou o olho estiver muito dolorido, existe risco de perfuração — é necessária avaliação veterinária imediata. O exame com corante de fluoresceína confirma a presença de úlcera: o corante gruda no tecido perdido.
Com os sinais de emergência identificados, vamos abordar as doenças de superfície — são as mais frequentes e as que o tutor costuma notar primeiro.
Doenças da superfície ocular: diagnóstico e manejo prático
Ceratoconjuntivite seca (KCS) — olho seco
Ceratoconjuntivite seca (KCS) é a redução da produção de lágrimas, resultando em ressecamento da córnea e conjuntiva. Teste de Schirmer mede a produção lacrimal: um papelzinho especial é colocado no canto do olho por 60 segundos; a quantidade de molhamento indica se a produção é normal. Valores baixos confirmam KCS.
Tratamento: uso de lubrificantes (lágrimas artificiais), e drogas imunomoduladoras tópicas como ciclosporina ou tacrolimus, que estimulam a produção de lágrimas ao reduzir inflamação. Em casos avançados pode ser necessário manejo cirúrgico da terceira pálpebra para proteger a córnea. Expectativa prática: com tratamento consistente, muitos cães recuperam conforto e evitam cicatrizes corneanas; o manejo costuma ser contínuo.
Úlceras de córnea — reconhecimento e conduta
As úlceras variam de superficiais a profundas. Diagnóstico baseia-se em exame com lâmpada de fenda (biomicroscópio) e teste de fluoresceína. Para avaliar profundidade ou suspeita de perfuração, faz-se ultrassom ocular ou avaliação sob sedação.
Tratamento inicial: interromper esteroides tópicos (se estiverem sendo usados), aplicar antibiótico tópico de amplo espectro para prevenir infecção, lubrificação e, conforme a gravidade, analgesia sistêmica. Úlceras corrói-penetrantes ou com risco de perfuração exigem intervenção cirúrgica como retalho conjuntival ou enxerto corneano. Para o tutor: úlceras superficiais podem melhorar em dias a semanas; úlceras profundas exigem cirurgia e reavaliação frequente.
Epífora e obstrução do aparelho lacrimal
Epífora é lacrimejamento excessivo que escorre pela face. Pode ser causado por obstrução do ducto nasolacrimal, conformação facial (dobras faciais que desviam lágrimas) ou irritação ocular. A irrigação do sistema lacrimal permite verificar permeabilidade. Se obstruído, procedimentos endoscópicos ou higiene contínua podem ser indicados.
Para o dia a dia: limpar as dobras com solução estéril e, se houver manchas escuras, investigar secundarismos como pigmentação por lágrima constante. Se a causa for entropion (pálpebra virada para dentro), correção cirúrgica melhora o quadro e reduz epífora.
Distiquíase e triquíase — cílios anômalos que machucam a córnea
Distiquíase e triquíase são termos para cílios mal posicionados que friccionam a córnea. Eles causam irritação crônica e úlceras. O diagnóstico é clínico; o tratamento pode ser eletrocauterização, crioterapia ou remoção cirúrgica dos folículos ciliários. Resultado prático: remover o estímulo elimina a fonte de dor e cicatrização corneana.
Prolapso da glândula da terceira pálpebra (“cherry eye”)
O prolapso da glândula da terceira pálpebra aparece como uma massa rosada no canto medial do olho. A glândula é responsável por parte da produção lacrimal. A técnica mais aceita atualmente é a técnica do bolso (pocket technique) para reposicionar a glândula, preservando a função lacrimal. Retirar a glândula pode precipitar KCS no futuro, portanto não é a primeira opção. Para o tutor: cirurgia tem boa taxa de sucesso e preserva produção de lágrima; complicações possíveis incluem recidiva.
Além das doenças de superfície, Pugs também têm risco aumentado de problemas intraoculares. A próxima seção descreve as condições dentro do olho que podem comprometer a visão.
Doenças intraoculares que afetam visão e pressão ocular
Glaucoma crônico e agudo — reconhecimento e opções
Glaucoma é aumento da pressão intraocular (PIO). O diagnóstico é confirmado por tonometria, que mede o valor em mmHg. Valores elevados associados a sinais clínicos (dor, midríase, hiperemia) definem a doença. Em Pugs, a predisposição pode ser congênita ou secundária a outras doenças (uveíte, luxação de cristalino).
Tratamento médico inicial: drogas tópicas como latanoprosta (um análogo de prostaglandina) ou timolol (beta-bloqueador), e carbonato de sódio tópicos ou sistêmicos (inibidores da anidrase carbônica) para reduzir produção de humor aquoso; osmóticos (manitol) em ataques agudos. Opcional cirúrgico: implantes de drenagem (ex.: válvulas), ciclocrioterapia ou ciclocoagulação para reduzir produção de humor aquoso e procedimentos para manter PIO estável. Em olhos sem prospectiva de recuperação funcional, a enucleação (remoção do olho) é uma opção para aliviar dor.
Catarata e facoemulsificação
Catarata é opacificação do cristalino (a lente natural do olho). Se a catarata compromete a visão funcional, a cirurgia moderna indicada é a facoemulsificação, que usa ultrassom para fragmentar e aspirar o cristalino e implantar uma lente intraocular artificial. Facoemulsificação é a técnica de escolha por permitir recuperação visual rápida e boa taxa de sucesso em cães.
A avaliação pré-operatória inclui medição da PIO, avaliação da retina (por oftalmoscopia direta e indireta) e, se houver dúvida sobre função retiniana, exame de eletrorretinografia (ERG). Para o tutor: após seleção adequada do paciente, muitos cães recuperam visão útil; complicações possíveis incluem uveíte pós-operatória e aumento de PIO.
Luxação do cristalino e uveíte
A luxação do cristalino (deslocamento da lente) pode ser parcial ou completa e causa inflamação intraocular (uveíte), dor e glaucoma secundário. Uveíte é inflamação da túnica média do olho (íris, corpo ciliar, coróide) e manifesta-se com vermelhidão, secreção, fotofobia e dor. Tratamento inclui moléculas anti-inflamatórias tópicas (não usar esteroides se houver ulcerações), cicloplégicos para aliviar dor e prevenir sinéquias (aderências), e correção cirúrgica da luxação se indicado.
Doenças da retina e do nervo óptico exigem exames especializados. A seguir, as condições retinianas mais relevantes e como avaliá-las.
Doenças retinianas e avaliação da visão
Atrofia progressiva da retina (PRA)
Atrofia progressiva da retina (PRA) é um grupo de doenças hereditárias que levam à degeneração da retina, causando perda gradual da visão. A retina é a camada sensorial que transforma luz em sinais nervosos. Os sinais iniciais podem ser noite-escura (cegueira noturna) e dilatação pupilar, progredindo para perda diurna completa.
Diagnóstico: exame oftalmológico pode mostrar vasos retinais afinados e reflexo da retina alterado; o exame definitivo é a eletrorretinografia (ERG), que mede a resposta elétrica da retina à luz. Atestados genéticos existem para algumas raças; para Pugs, verificar programas de teste reprodutivo ajuda a reduzir incidência. Prognóstico: não há cura; manejo inclui adaptação do ambiente do animal e monitoramento para condições secundárias (úlcera por trauma). Para tutores: modificar rotas da casa, evitar mudanças bruscas de mobiliário e usar sinais sonoros ajuda o cão a manter qualidade de vida.
Degenerações e descolamentos de retina
Descolamento de retina pode ocorrer secundário a trauma, hipertensão sistêmica ou inflamação. Sinais súbitos de perda visual e reflexos pupilares alterados exigem ultrassom ocular e avaliação por oftalmologista. Tratamento cirúrgico (recolocação) em cães é menos comum que em humanos; muitas vezes o manejo visa a condição subjacente e conforto.

Os exames realizados por um oftalmologista veterinário são centrais para diagnóstico e planejamento terapêutico. A próxima seção descreve os principais testes e o que você pode esperar na consulta especializada.
Exames oftalmológicos: o que são, para que servem e como são feitos
Exame com lâmpada de fenda e biomicroscopia
A lâmpada de fenda é o biomicroscópio usado para examinar em detalhe a córnea, câmara anterior, íris e cristalino. Permite identificar úlceras, depósitos, inflamação e opacidades. Normalmente é realizado sem sedação; o cão deve estar calmo ou ser suavemente contido.
Tonômetro e tonometria
O tonômetro mede a pressão intraocular (PIO). Existem modelos de aplanação e de rebote; em cães, o tonômetro de rebote é amplamente usado por ser rápido e bem tolerado. Medir a PIO ajuda a diagnosticar glaucoma e monitorar resposta ao tratamento.
Teste de Schirmer e avaliação lacrimal
O teste de Schirmer avalia produção de lágrimas em 60 segundos. Valores baixos confirmam KCS e orientam que o tratamento imunomodulador ou lubrificação seja iniciado. É simples, pouco doloroso e informativo.
Teste de fluoresceína e avaliação de integridade corneana
Coloca-se uma gota de corante na superfície ocular e verifica-se com luz azul para detectar defeitos epiteliais (úlcera). É o exame inicial para qualquer olho vermelho, lacrimejante ou dolorido.
Gonioscopia e avaliação do ângulo de drenagem
Gonioscopia é o exame do ângulo iridocorneano, onde se encontra o sistema de drenagem do humor aquoso; alterações no ângulo podem predispor ao glaucoma. É feito com lente especial e exige habilidade do oftalmologista; ajuda a decidir risco de glaucoma e indica necessidade de intervenção precoce.
Gonioscopia, ultrassom ocular e ERG
Ultrassom ocular é usado quando não é possível visualizar o interior do olho (ex.: opacidades) para avaliar o vítreo, retina e câmaras. O ERG mede atividade elétrica da retina e é essencial quando se suspeita de doenças degenerativas como PRA ou antes de cirurgia de catarata para confirmar função retiniana.
Com o diagnóstico estabelecido, o próximo passo é escolher o tratamento correto. A seção seguinte descreve tratamentos médicos e cirúrgicos comuns, com o que o tutor deve esperar no pós-operatório.
Opções terapêuticas e o que esperar após procedimentos
Tratamento médico: princípios e exemplos práticos
Tratamento médico visa controlar dor, infecção, inflamação e pressão ocular. Exemplos práticos: lubrificantes para KCS, antibióticos tópicos para úlceras superficiais (ex.: gotas de cloranfenicol ou antibioticos de amplo espectro conforme cultura), imunomoduladores tópicos (ciclosporina, tacrolimus) para KCS, e colírios para glaucoma (latanoprosta, timolol, dorzolamida). Analgésicos sistêmicos e anti-inflamatórios são usados conforme necessidade, sempre considerando contraindicações.
Procedimentos cirúrgicos mais comuns e finalidade
- Comissuroplastia medial: reduz exposição ocular em braquicefálicos; melhora proteção da córnea.
- Entropion correction (Hotz-Celsus): corrige margem palpebral virada para dentro que arranha a córnea.
- Técnica do bolso para glândula da terceira pálpebra: reposiciona glândula e preserva função lacrimal.
- Retalho conjuntival/enxerto corneano: indicado em úlceras profundas para reforçar parede corneana.
- Facoemulsificação: remove catarata e pode restaurar visão.
- Procedimentos para glaucoma: implantes de drenagem, ciclocoagulação ou enucleação quando necessário para controle da dor.
Cuidados pós-operatórios: rotina e sinais de alerta
Pós-operaório inclui uso de colar elisabetano para evitar trauma, colírios conforme prescrição (antibiótico, anti-inflamatório, midriático), analgesia e reavaliações frequentes (dias 1, 7, 30 e conforme necessidade). úlcera de córnea em cães tem cura de alerta: descarga purulenta, aumento de vermelhidão, olh o mais dolorido, ou suturas soltas. Nesses casos, retornar imediatamente ao cirurgião oftalmológico.
Além do tratamento, a prevenção e manutenção diária reduzem recorrências. A seguir, conselhos práticos para proprietários de Pug.
Prevenção, monitoramento e cuidados diários em casa
Higiene e proteção para reduzir risco de trauma e infecção
Limpeza diária das dobras faciais com solução fisiológica ou lenço estéril, secagem suave e inspeção visual evitam acúmulo de secreção e irritação. Evitar exposição a ventos fortes e poeira reduz risco de ceratite por corpo estranho.
Vacinas, controle de doenças sistêmicas e genética
Manter vacinação e controle de doenças sistêmicas (hipertensão, diabetes) é importante porque condições sistêmicas podem predispor a uveítes e alterações retinianas. Para reprodução, consulte programas genéticos para reduzir incidência de PRA e outras doenças hereditárias.
Adaptações domésticas para cães com visão reduzida
Se houver perda visual progressiva, mantenha móveis em lugares fixos, use tapetes como marcadores de rota e crie rotinas. Estímulos sonoros e olfativos ajudam o cão a manter autonomia. Segurança: evitar escadas sem proteção e sair sempre com coleira.
Agora uma síntese prática com passos claros para tutores que encontram sinais oculares em seu Pug.
Resumo e próximos passos imediatos para o tutor
Ações imediatas
1) Se o cão demonstra dor intensa, perda súbita de visão, proptose ou ulceração profunda suspeita — vá ao pronto-atendimento veterinário ou oftalmologista imediatamente.
2) Para olhos lacrimejantes, vermelhos sem dor intensa — limpe suavemente e agende avaliação oftalmológica dentro de 48–72 horas.
3) Não aplique esteroides tópicos sem orientação veterinária (podem piorar úlceras e infecções).
O que perguntar no atendimento oftalmológico
Pergunte: quais exames serão feitos (tonometria, Schirmer, fluoresceína, biomicroscopia, ERG)? Há necessidade de sedação ou anestesia? Quais são as opções de tratamento (médico vs cirúrgico), prognóstico e custos estimados? Existe necessidade de ajustes no ambiente doméstico?
Planos de longo prazo e prevenção
Agende exames de rotina anualmente ou conforme orientado pelo oftalmologista; mantenha higiene das dobras faciais; considere intervenção precoce para problemas estruturais (entropion, comissuroplastia) para prevenir lesões repetidas. Em reprodução, siga orientações genéticas para reduzir herança de doenças oculares.
Recursos e respaldo profissional
Procure oftalmologistas veterinários credenciados e centros que sigam protocolos do CFMV, CRMV-SP e ABMVP. A avaliação por especialista garante diagnóstico preciso (uso de tonometria, gonioscopia, ERG e ultrassom quando necessário) e plano terapêutico que priorize conforto e visão do seu Pug.
Seguir estas orientações ajuda a transformar um sinal ocular preocupante em um plano concreto: reconhecer urgência, obter diagnóstico especializado, iniciar tratamento adequado e implementar prevenção contínua para proteger a visão e o bem-estar do seu Pug.